H@ VIDA DEPOIS DOS 40

...com pensamento, opinião e poesia em doses homeopáticas...

Sexta-feira, 11 de Julho de 2008

preguiça

A preguiça é pecado capital e eu juro que preciso me encontrar de novo em meu interior. E vou. A família pequena se multiplica nas festas de casamento. Primos, primas, tios, sobrinhos, afilhados, amigos... ah como é bom o clima do interior. Embora o provincianismo tenha seus defeitos e caprichos, não se pode negar a beleza natural, o encantamento das paisagens conhecidas desde sempre. Os tons dourados do sol generoso e do céu sem núvens. Noites frias e o quentão que nos aquece em noites julhinas. Porque tanto tempo sem postar?! Preguiça...

Segunda-feira, 30 de Junho de 2008

Folha seca

           E a folha seca que o vento faz rodopiar... terá alguma serventia?! Ninguém se dá conta, ninguém dá valor até que os olhos façam contato com sua trajetória imprevisível e se encante com a evolução da sua dança inútil. Descontrole. Um descontrole, entretanto, sem estresse porque a folha seca nem se preocupa com seu destino... Talvez eu seja feito a folha seca vida afora em certos papéis que assumo ou que me assumem. Folha seca. Quem nunca se sentiu mera folha seca volátil arrastada pelo vento?! Quem disser não que guarde as suas pedras porque não pode existir nada mais inútil que a tentativa de apedrejar uma folha seca em seus volteios sem sentido...

Terça-feira, 24 de Junho de 2008

São João

          Fecho os olhos e mergulho nas memórias. Aromas, paladares, imagens e sons tomam conta de um momento chamado agora que busca um outro agora já vivido no passado. Não se trata de saudosismo - é só saudade. Saudade de amar daquele jeito juvenil capaz de entregas sem limites, de sonhar sobre brasas que aquecem sem queimar. Noites frias juninas do folclore, dos balões, noites frias de fogueiras, pinhões, batata doce e quentão. E o mais bonito de tudo, aquele sorriso brejeiro de indumentária caipira nas noites de São João...


(fonte: http://198.106.110.30/noticias/sao_joao_certo_maior1.jpg)

 Gilberto Gil - Viva São João

Sábado, 21 de Junho de 2008

Até quem devia prender agora está roubando!!!

Eu não resisti a reproduzir o texto que encontrei no blog
Cerveja, Chapéu e Cuíca do Hugo Henrique.

"É ladrao que não acaba mais" ( Bezerra da Silva )

Quando Cabral aqui chegou
E semeou sua semente
Naturalmente começou
A lapidação do ambiente
Roubaram o ouro, roubaram o pau
Pra ficar legal, ainda tiraram o couro
Do povo dessa terra original
E só deixaram a má semente
Presente de Grego
Que logo se proliferou
E originou a nossa gente

É ladrão que não acaba mais
Tem ladrão que não acaba mais
Você vê ladrão quando olha pra frente
Você vê ladrão quando olha pra trás

E, a terra boa, mais o povo continua escravizado
Os direitos são os mesmos
Desde os séculos passados
O marajá, ele só anda engravatado
Não trabalha, não faz nada
Mas ta sempre endinheirado
Se entrar no supermercado...Você é roubado
E se andar despreocupado...Você é roubado
E se pegar no ponto errado...Você é roubado
E também se votar pra deputado...Você é roubado
Certo! Tem sempre 171 armando fria
Tem ladrão lá no congresso, na fila da padaria
Ladrão que rouba de noite, ladrão que rouba de dia
Dentro da delegacia, ninguém entendia a maior confusão
O doutor delegado grampeou todo mundo
Porque o ladrão roubou outro ladrão

É ladrão que não acaba mais
Tem ladrão que não acaba mais
Você vê ladrão quando olha pra frente
Você vê ladrão quando olha pra trás


Quinta-feira, 19 de Junho de 2008

ilhado no tempo

Hoje é a minha ilha. A mesma ilha que, no entanto, se faz nova a cada dia. Único solo concreto entre o ontem e o amanhã. Podia ter feito melhor nesse dia, podia não ter errado tanto, podia tantas coisas... mas o dia ainda não terminou e alguma coisa boa ainda há por fazer antes que chegue ao fim. Se não fizer, - não posso me esquecer, - o amanhã vai virar hoje e daí terei todo um novo dia para fazer direito o que hoje não foi feito...

Segunda-feira, 16 de Junho de 2008

espoletas

pariu-se o verso
à minha revelia
fruto da fantasia
sem dono
que não abdica ao trono
desta ironia
meu pecado é consentir
que o traço revele
o passo...
rumo ao cadafalso
ou a afronta gratuita
à alça de mira
duma arma inútil
tiro de espoleta
pirotecnia...

Domingo, 15 de Junho de 2008

levitação

Se eu tivesse asas hoje seria um daqueles dias feitos pra voar. Se eu fosse piloto, certamente haveria de justificar a profissão. Mesmo assim, não tendo asas e nem sendo piloto, meu corpo parece levitar e, de súbito, pareço transgredir a lei da gravidade... perguntada a razão, direi que uma especial não há... apenas o gosto bom de uma manhã dominical ensolarada e uma certeza tênue de estar no lugar certo, do jeito certo e no espaço adequado para ser quem sempre fui. Como aquele conhecido exemplo da água que toma a forma do jarro ou do jarro que molda o formato que a água nele adota... ambos se configurando mutuamente. Creio que estudar filosofia me tem feito bem e creio que estudar teologia me fará ainda um bem maior. Contudo, só o tempo para corroborar essa minha expectativa em grau otimista. Até lá, - ou ao menos por agora, - vou me permitir esse suave flutuar...

Quinta-feira, 5 de Junho de 2008

brumas

quem sabe seja o arauto
de uma mensagem cifrada
enigma de vida
pois a morte é o norte
e o sul de cada dia
o sentimento é triste
vácuo frio em agonia
no piso úmido desta nave
só os tímidos rastros
de passos escondidos
portal que não se fecha
coração que não se abre
domesticado nesta jaula
procurando entre as grades
o brilho lunar da melancolia...

Quarta-feira, 4 de Junho de 2008

pétalas caladas

Hoje não vou falar das flores que estão adormecidas. Não vou falar do clima frio e molhado. Não vou falar das babaquices da política tupiniquim. Nem vou falar de mim. Pensando bem, hoje simplesmente não vou falar... Quem dera, ao menos, que algum ouvido alucinado - tomado de uma sensibilidade súbita e aguçada - ouvisse as entrelinhas desse ensurdecedor silêncio!

Quarta-feira, 28 de Maio de 2008

Aroeira

Ninguém sabia a razão do apelido, talvez só ele mesmo o soubesse. Aroeira. Um velho negro legítimo e forte que jamais se sentara numa daquelas carteiras escolares meticulosamente fabricadas por suas mãos calejadas. Nada era seu, a madeira, o serrote, o martelo, a grosa, pregos e parafusos, a bancada da marcenaria. Assim falando, entretanto, se poderia imaginar uma fábrica de móveis. Nada disso, era apenas um barracão abandonado e lá num canto cuidado - o único lugar efetivamente cuidado do barracão, aquelas tralhas bem antiquadas, embora os equipamentos de mão como serrote, martelo, arco de pua e outros estivessem sempre limpos e brilhantes que dava gosto ver. Juvêncio o dono de tudo, desde o barracão até as tachinhas de aço, - diversas vezes oferecera a velha marcenaria ao Aroeira. Mas que nada... ele dava um baita de um sorriso banguela e dizia que não precisava coisa alguma... só que o deixassem trabalhar na fabricação e no conserto das carteiras da escola onde seus netos estudavam. Na verdade ali estudaram seus nove filhos e até sua mulher - dona Chica - fizera Mobral e se alfabetizara depois de idosa. Aroeira pregava seus pregos, apertava seus parafusos, serrava suas peças de madeira, montava as carteiras e as entregava no grupo escolar. Dinheiro nunca quis, se contentava com o muito obrigado do diretor, o professor Vitalino Cabral. Bastava o salário mínimo da aposentadoria que o Mastroiani da farmácia havia conseguido para ele com seu amigo do escritório de advocacia - o único do vilarejo. O dr. Mendes não se fizera de rogado ao pedido do amigo farmacêutico, afinal suas tres meninas haviam feito intensivo uso das carteiras fabricadas pelo velho Aroeira. E olha que foram muitos anos somados de escola. Uma era arquiteta, outra professora e a terceira jornalista na capital. Bem, mas isso nem vem tanto ao caso. O foco aqui é o Aroeira. E para encurar a história, motivo desses garranchos, a última carteira em fabricação não chegou a ser concluída. Aroeira ali rígido, sentado na carteira sem acabamento, parecia experimentá-la com aprovação. Jorge, seu neto de 8 anos ali ao seu lado chamava-o com insistência. Vovô! Vovô! Acorda vovô! Mas qual... Aroeira viajava a bordo de sua última carteira... Daqui um tempo os estudantes do grupo escolar Dr Barros Varella Pessoa haverão de sentir a sua falta... Salve Aroeira - velho amigo da gente, referência respeitosa do lugar!

Terça-feira, 20 de Maio de 2008

quem somos?!

me persegue a pergunta
tantas vezes respondida
sempre de forma incompleta
e ei-la aqui novamente
cheia de interrogações
mesmo depois desses anos
simulacros, desenganos
ainda não sei dizer
a resposta consentida
definitiva e perdida
no universo do meu ser
quem eu sou, afinal...
quem sou eu
quem somos nós
quem é você?!

Terça-feira, 13 de Maio de 2008

fomes

o pão é a resposta da fome
mas depois de saciados
restam perguntas tantas
sobre a vida,
sobre a morte
e sobre o que nos consome
sou faminto nesse chão
sinto falta desse pão
pra matar a minha fome...

Terça-feira, 6 de Maio de 2008

formigueiro

      Não é por falsa humildade que afirmo saber muito pouco entre todos os saberes, – é mera constatação. E mais, do pouco que sei, a maioria das coisas assustam ou esmagam por revelar o meu real tamanho diminuto. Formigo interiormente, formigam as minhas mãos, o sangue foge formigante nas veias. Me sinto uma formiga em lerdo movimento e vou arrastando um nada que pra mim é folha enorme tombando ora para lá ora para cá - refém do ondulante movimento ou sob o sopro de qualquer vento. Como ela, me lambuzo em doces e traço folhas verdes – mas também me diferencio pelo instinto carnívoro e soçobro à inclinação autodestrutiva me desmontando pensativo em muitas peças mentais que nem sempre se reencaixam. Isso, por vezes, faz de mim triste figura. Então suo, tremo e formigo. Mas, incansável igual a ela, vou insistindo quixotescamente e retomo a caminhada, vergado à folha da vez...

Quinta-feira, 1 de Maio de 2008

bom dia

      Quem me vê e enxerga uma imagem de pessoa equilibrada, não vê, contudo, o lastro da história que me trouxe até esse ponto da minha trajetória. Não, não estou pretendendo vitimizar-me - apenas tento utilizar um processo indutivo para chegar a uma generalidade: um retrato atual revela apenas a superfície de alguma situação ou pessoa, não é o ser de alguém que ali se encontra revelado. A busca do equilíbrio pressupõe superações, risos e lágrimas, altos e baixos. A dor eventual é um lastro a garantir um tal equilíbrio. Quem não sofreu ou não sofre alguma dor ocasional? Há quem sofra diturnamente e há até quem cultive um tanto a própria dor. Longe de mim tal escolha, o que eu procuro é o linimento apropriado para cada circunstância causadora de sofrimentos. Procuro eu mesmo ser bálsamo para as pessoas que me rodeiam. Nem sempre o consigo, é certo. Mas continuo insistindo nas tentativas. Também já não me mantenho refém da culpa pelos erros cometidos, como não sucumbo ao canto da sereia dos elogios aos eventuais acertos. Alguma sapiência adquirida com o passar do tempo me ensina que o melhor para se viver bem é viver bem um dia de cada vez. A bíblia - a melhor referência humanística que conheço - o ensina: a cada dia basta o seu cuidado. Me esforço, pois, para ter um bom dia de vida a cada vez! Que bom se o foco de ao menos um olhar iluminar-se com mais estas linhas ainda tecidas no escorregadio limiar da pieguice intimista.

Sábado, 26 de Abril de 2008

camadas de escamas

      Neste processo existencial que é longo e trabalhoso, quisera tirar ao menos umas tres novas camadas que me envolvem. Seria tão bom não precisar ensaios e papéis. Melhor seria andar nu e sem vergonhas - tudo bem que isso seja apenas utopia pelo andar da carruagem da humanidade que ainda segue entre sorrisos, acenos educados e assentimentos. Mas ao menos para mim, na ilha desabitada dos meus pensamentos, sei muito bem quem sou - e confesso que já gosto do que vejo no espelho, - não pela estética desgastada dos anos, mas pela redução daquelas camadas mais frívolas erodidas pelo tempo. A concretude do real confere maior densidade ao ser liberto do excesso de hipocrisia asmaticamente sufocante. Apesar de algum cansaço da estrada, um sopro leve de liberdade me permite uma respiração mais regular...

Terça-feira, 22 de Abril de 2008

depois da curva

depois da curva inclinada
que até pode ser a última
se não se conhece o caminho
ou talvez a retomada
no vôo de fazer ninhos
há que voltar pra casa
sempre ao fim dos dias
nenhum lugar é melhor
nenhuma cama tão boa
mergulhar sob as cobertas
nas noites frias de outono
onde os corpos trocam donos
e sonham somente sonham
sonhares alvissareiros...

Terça-feira, 15 de Abril de 2008

tique-taques


      Alguma coisa no tempo me absorve em extenuante trabalho inútil da mente. O tempo passa. Na parede, quase desapercebido – meu relógio muito antigo marca sem saber essa passagem. É máquina, mas é personagem de uma história. Me lembro dos meus primeiros contatos com ele. Seus tique-taques monocórdios só pareciam interrompidos pelo badalar das horas cheias e de suas metades. Criança ingênua – a ingenuidade era minha companheira inseparável – eu via a alma do relógio e desde então eu já sabia que teríamos um caso de posse mútua. Tenho eu esse relógio ou será que ele me tem?! Não sei. Na verdade ele sempre marcou as minhas horas. Mesmo quando eu já não estava por perto e fui embora pra cidade. Primeiro a pequena e depois a grande. Meu relógio – que ainda não era – a esperar num compasso repetitivo e paciente. Tique-taque, tique-taque, tique-taque... Blemblom, blemblom, blemblom... Eram três horas da tarde. O sol a pino e um calor que Deus mandava. Os animais no pasto adivinhavam chuva relinchando, correndo, balindo, pastando. Eu chorava num canto sob o meu relógio... Imaginava febril as horas longínquas que nunca chegavam e que ainda não me deixavam partir. Parece que aquelas lágrimas tiveram o condão de acelerar o tempo que não passava e a partir de então, cada dia mais depressa ele foi passando e desgastando os infindáveis tique-taques do velho relógio pendurado. Anos depois, idas e vindas, depois de tantas mudanças o cansaço das viagens. Tanto quanto a mim ele me pareceu tão cansado da última vez que pude ouvi-lo noite adentro em seu balanço nostálgico e hipnótico... Se movia tão exausto e lento que ao clarear do dia seus ponteiros carcomidos amanheceram parados. Quando o moderno celular me despertou olhei-o lânguida e longamente, mirando as figuras gastas de seu vidro amarelado pelo tempo. Um tristonho desalento me envolveu e não tive coragem de girar sua anacrônica manivela que o obrigaria retomar seus movimentos a demarcar meu tempo. Quedei-me absorto e deixei que permanecessem imóveis seus ponteiros e badalo, e que se calassem os seus tique-taques...

Sábado, 12 de Abril de 2008

sorrisos

um sorriso não pensado
faz o peso aliviado
dá à vida mais prazer
pensamento anuviado
traz tormentas torrenciais
e quem quer pensar demais
perde o riso encantador...

Terça-feira, 8 de Abril de 2008

segredos

       Expandindo o pensamento anterior, quero explicitar melhor outras nuances daquilo que entendo por verdade. Ela é certamente a mais cobiçada virtude que almejo e cultivo. Entretanto engloba também meus segredos, sem os quais a privacidade - outra exigência vital - seria impensável e impossível. Não deixo de ser verdadeiro quando omito uma ou mais facetas da minha personalidade - especialmente quando não gosto delas ou quando a hipocrisia social as tem por condenáveis. Tenho impulsos, tendências, prepotências e mazelas em relação às quais não teria sentido sair por aí fazendo propaganda. Além daquelas coisas que definitivamente não convêm expor e revelar, existem defeitos para os outros que para mim são virtudes, mas que as regras da boa convivência recomendam que não se as propague, porque, admito - e é verdade, - aspiro também a aprovação social. Um exemplo é quando se tem consciência de possuir determinada qualidade sobre a qual em momento algum se deve pronunciar a respeito porque há uma convenção de que elogio em causa própria é vitupério. Não ficou claro?! Então deixa pra lá... mas é mais ou menos isso. Ser verdadeiro, pois, para mim, não significa viver virado ao avesso arrotando verdades inconvenientes. Ser verdadeiro é uma coisa interna que interessa ao indivíduo como pessoa e que, evidentemente, se torna manifesto em suas atitudes exteriores. Por isso, embora tendo um perfil mais transparente que misterioso, sei respeitar e conviver muito bem com os segredos - os meus e os alheios.

Segunda-feira, 7 de Abril de 2008

esforço verdadeiro

      Todo bom é íntegro e nem importa que se apresente em estilhaços, pedaços ou metades. A verdade é uma convicção certeira mesmo que ao fim se revele um engano e perca o conceito de verdade que lhe fora atribuído, mas a mentira não leva nenhum jeito para se tornar verdade. Há quem confunda engodo com verdade. Sabe, aquela mentira repetida à exaustão? Goebels, que foi ministro da propaganda de Hitler engendrou e utilizou uma tal estratégia. De concreto mesmo é que o falso até pode parecer verdadeiro, mas verdade jamais será. Então, se não é possível ser dono da verdade, ao menos é possível o esforço para ser verdadeiro. E esse esforço eu sempre faço porque a mim, creiam-me ou não, só apetece a verdade!

Quarta-feira, 2 de Abril de 2008

horizonte

Quando jovem perseguia crédulo o infinito e jurava em breve alcançá-lo. Maduro vivo ainda em seu encalço apesar de sabê-lo inalcançável e fugidio. O que não quero é ficar olhando para trás - também não quero mirar fixa e obsessivamente meu próprio umbigo. Melhor é caminhar sem pressas, toureando as intempéries, superando as inclemências e rudezas própria e alheias. Aspiro belezas pequenas como os perfumes passageiros e todas as coisas que aguçam o melhor dos meus sentidos. Minha contemplação sempre avança circular e concêntrica procurando envolver meus amigos, os entes queridos e todas as pessoas iluminadas que se achegam para construir pontes de afeto e amizade. Com elas ao meu lado quero caminhar sereno e com liberdade rumo ao horizonte que luz...

Sexta-feira, 28 de Março de 2008

carrosséis

amalgamar as cinzas
neste espremedor de idéias
verdadeiro caudal de pensamentos
a conspirar no vazio
sem nenhuma inspiração
retorno ao lugar confuso
- nó de sortilégios -
e de nada adianta
é hora do crepúsculo
adormecem os músculos
despertam os delírios
na saliva dos desejos
merejam instantes de poesia
mas é rebate falso
balde d'água fria
não passam de fantasmas
no meu lusco-fusco vespertino...

Segunda-feira, 24 de Março de 2008

sem leme

perscrutar as razões
vã filosofia...
mas o sentido mesmo
só na poesia
a dos sentidos
desde o olhar noturno
em toques lânguidos e à revelia
cálido cheiro de romã
a dissipar sabores
ressoando nostalgia
um sexto sentido
esculpe na alma
grávida melancolia
que faz parir a escuridão
na madrugada e à luz do dia

Quinta-feira, 20 de Março de 2008

Feliz Páscoa e bom feriado

Respeito todas as opções religiosas e as opções não religiosas também, claro. Entendo que o mais importante é que não hajam intolerâncias ou fanatismos de quaisquer matizes. Respeitar a identidade alheia não significa anular a própria. Eu tenho uma religião - sou católico apostólico romano - participo das missas dominicais e nestes dias, em particular, participo das celebrações pascais que são as mais importantes liturgias católicas que se celebra. Todos os dias faço as minhas orações e busco uma sintonia com o sagrado que, para mim, traz o sentido último do existir. Gosto muito de uma cervejinha nos finais de semana para acompanhar um churrasco ou aquele almoço gostoso de domingo. Mas na quaresma, período que vai da quarta-feira de cinzas até o domingo dé páscoa, eu fico sem me deleitar com esse meu pequeno prazer. Parece pouco. E é. Pelo menos dois efeitos salutares isso me traz: ajuda a moderar o hábito da bebida e a superar o impulso imediatista do prazer. Quando chega a Páscoa celebro a vida e brindo com meus entes queridos com direito a um prato saboroso, uma cervejinha gelada e um pouco de chocolate que ninguém é de ferro. Então a todos os cristãos que me lêem desejo uma Feliz Páscoa, aos demais desejo um bom feriado!

Segunda-feira, 17 de Março de 2008

verbo surdo

no verso da palavra há um estopim incendiário
que pede água imaginária e afoga seu rastilho
então se recomeça um outro ciclo perdulário
revisitando palavras estopins e águas em delírio
será que não transcende esse imanente sanguinário
esse desejo incinerante submerso e carmesim?!
me engarrafo tamponado no silêncio
meus olhos ficam tão grudentos ...
de onde estou vindo, pra onde estou indo?!
antepassados produziram morticínio
que vaticinam rancoroso odor de morte
o medo camuflado nas manchetes dos pasquins...
enfrentamento e fuga
eros e tanatos
fato inconteste nesta raiva machucada
imotivada e agreste
deambulando em pleno cativeiro
rubra escarlate em seu cheiro
nessa instância amordaçada até o fim...

Sexta-feira, 14 de Março de 2008

hmmmmmm

hmmmm....

As coisas simples também costumam ser muito mais gostosas de saborear, além de serem saudáveis, vistosas e bem fáceis de fotografar... E ainda tenho na memória afetiva e gustativa o sabor deste arroz de forno que degustei lá pelas bandas de Salvador na companhia de pessoas das mais generosas, acolhedoras e amáveis que conheço... E precisa, - à mesa, - alguma coisa melhor que isso?!...

PS.: Um dos comentários deste post é do Fabiano e ele me elegeu também, além da Biazinha que já o fizera anteriormente, como blogueiro que sabe comentar. Claro que é uma satisfação ter esse reconhecimento agora duplicado! Então, resta agradecer aos dois pela gentileza do selo a mim conferido. Obrigado amigos!

Quinta-feira, 13 de Março de 2008

cinzas do cautério

aproximei os lábios ao cautério
num beijo longo e demorado
unindo as duas partes interpostas
nada restou de voz - vivo calado

aproximei meus olhos do cautério
em masoquista olhar descontrolado
queimou-se córnea e íris - a menina
só vejo as labaredas do passado

aproximei meu dedos ao cautério
numa carícia longa e demorada
uni os cinco dígitos da mão
fugi das manipulações travado

aproximei o peito ao cautério
pulsando um coração descompassado
frigiu numa fusão arrependida
e derramou seus magmas cansados

aproximei a mente ao cautério
num pensamento louco acabrunhado
fundi idéias, derreti o cerebelo
agora arrasto os chinelos desvairado

me aproximei inteiro do cautério
em chamas, brasas vivas inflamadas
me consumi buscando a redenção
mas só restaram cinzas espalhadas

(ps.: texto readaptado do meu original por aqui publicado em 25/05/03)

Terça-feira, 11 de Março de 2008

aquém do além

toda situação tem dois lados - no mínimo
nem sempre, mas às vezes ambos são bons
ou poderiam ser se os olhássemos sem medos
pra todo mundo tudo acaba no fim
mas algumas pessoas nem começam
porque se acabam muito cedo
cultivando dores anônimas
assumindo andores estranhos
carregando os vasos sem as flores
na vida é preciso mais
é preciso crer
buscar a rota perdida
apreciar a música
e o silêncio
saber andar, correr e também a hora de parar
um pit stop não é exclusividade da fórmula 1
quem não se dá um tempo
pode não encontrar-se
e ninguém pode perder de vista
a si mesmo
pois quem não consegue gostar-se
não gosta de mais ninguém
a vida é bela
o sol colore as paisagens
e algo grandioso espera além
a todo o que vive bem
ou faz o seu esforço para tal
diuturnamente
aqui no aquém

Segunda-feira, 10 de Março de 2008

pernoite

na calada
soava rouca a tua voz
e a cada vez
que ecoava meu silêncio
podíamos ouvir
teu riso cristalino
a acender meus olhos de menino
como se estivessem noutro tempo
a noite avançava sem pressa
mas não medíamos as horas
fomos vencidos pelo sono
os sons se foram extinguindo
nossos corpos dormitantes
em suave torpor sob os lençóis
nenhuma idéia ou projeto de amanhã
abandonados à pertença mútua
na leveza insustentável de um momento
perdido numa noite qualquer
amostra expressiva
do terno encontro das vigílias
fiel retrato de uma vida
íntima ao par
depois do sol se por
e até o novo dia despertar

Sexta-feira, 7 de Março de 2008

quatro décadas depois...

estas noites e suas nostalgias
refém de olhares suplicantes
revejo em sonhos velhas madrugadas
me lembra o violão e aquela voz suave

éramos poucos e fiéis
nas noites de sexta rodopiávamos
nas pistas, nas festas e coquetéis
à cata de aventuras inocentes

no máximo alguns excessos etílicos
e no sábado as ressacas matinais
afora isso tudo era tão tranquilo
leve clarão no céu de azul profundo

tantas indefinições então no horizonte
tínhamos cabelos longos, calças jeans
ingênuas crianças de sonhos adultos
ouvíamos raul, beatles e bee-gees

não éramos melhores ou piores
que os garotos dos dias atuais
diferia a moda, a malícia, os interesses
mas em algo éramos iguais
éramos jovens

Quinta-feira, 6 de Março de 2008

infusões

no território das sensações
a volúpia dos enganos
escolta tua pele desnuda
retardando a iminência
da lava em ponto de explosão
até o momento inadiável
de sublime instinto
que antecipo e sinto
nos planos da emoção
em teus braços submerso
perco a clareza no verso
e me inundo de paixão
num mergulho denso
esmoreço
e minha identidade difusa
se desvanece na tua
jazem gotas singulares
no plural
dessa fusão

Quarta-feira, 5 de Março de 2008

reconfigurações

o coração
terra tão perto
planeta deserto
gira e translaciona
quem sou
face inexpressiva
nesse plano
junto meus pedaços
regenerando a figura
entre ansiedade e fissura
procuro o que há de melhor
no imediato e no futuro
que tragam as nuvens
mansas chuvas de outono
irradiando ao peito
luzes em meu sono
em dias de sol
e noites de luar...


PS.: Não tenho muita afinidade com selos, memes e quetais do universo blog - mas não pude resistir ao carinho da minha sobrinha mais recentemente conquistada, a Biazinha e vou publicar o elogioso mimo em forma de selo com que ela me elegeu. Então, lá vai...



Domingo, 2 de Março de 2008

promessa de outono

deslizo no silêncio musicado
a mente é capaz dessa harmonia
bailo completamente estático
e rodopio num salão imaginário
condutor e conduzido
musa e dançarino alado
voamos sem limites
lado a lado
até um ponto do infinito
algum lugar sagrado
aonde o pensamento nos levar...

Quinta-feira, 28 de Fevereiro de 2008

índole amistosa

Uma índole que se incorporou ou que sempre fez parte do meu ser me arrasta a fazer as escolhas vitais. Das menores às mais relevantes. Desde o mais trivial ato de acordar e decidir levantar ou continuar na cama até a decisão de demissão ou permanência no emprego, mudança ou continuar morando na mesma cidade ou entre aceitar desaforos e chutar o balde.
Um centro decisório pessoal tem nessa minha índole - que me faz ser o que sou – o seu critério.
Entre tantos tipos humanos, há pessoas acomodadas, pessoas incomodadas e pessoas inconstantes. Vivo na tensão contínua entre acomodação e o incômodo que isso me faz sentir. Ajo, pois. Mas uma ação lenta, gradual e com vistas ao longo prazo. Inconstante não sou. Definitivamente. E não gosto de gente inconstante que ora está de um jeito ora de outro. Uma vez todo sorrisos e na outra, cara virada. Ora amistoso, ora hostil. Em gente assim nunca creio no sorriso estampado pois antecipo a ameaça velada escondida entre os dentes que tenderão a ranger avante.
Não há segurança em relacionamentos desse naipe. Fujo. O bom mesmo são as pessoas que despertam sempre ora o entusiasmo ora a solidariedade, quer sorriam quer vertam lágrimas. Entusiasmo e solidariedade sempre nos impulsionam para frente e para o alto. E só mesmo em gente acolhedora, positiva e entusiasta vale a pena investir confiança e amizade!

Quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2008

monólogo

Passei da casa dos 50... nessa aventura perdi pedaços importantes de mim, mas a vida enxertou novas vidas em minha estória. Nunca estou só - não ao menos completamente. Caminho por caminhos navegados e descortino horizontes novos os quais sempre me vejo a desbravar. É verdade que acordo muitas vezes interrompendo muitos dos melhores sonhos... mas nada que uma boa cochilada não os permita resgatar. Estou aqui e faço parte de um momento raro da humanidade - único para mim e meus contemporâneos. Quiçá me leiam no futuro - que pelo menos eu mesmo o faça. Quem sabe as minhas letras imortalizem uma parte de mim. Aquela parte que ousou expressar-se e deixar registradas impressões que o tempo costuma dissipar... De todo modo, é preciso viver. E se é bela a vida, bom é exprimir os momentos marcantes: sejam os de maior deleite bem como os de aflições, incertezas e ansiedades - sempre na certeza que a alegria deve prevalecer e suceder a cada um destes momentos de tensão que se experimenta no decorrer de uma existência...
Que a vida possa fluir livremente, em planos feitos ou acasos, - mas que amadureça e frutifique até o seu ocaso!

Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2008

tsunamis

Após um arrastão de sentimentos confusos que por vezes nos invadem corpo, mente e alma, sobra apenas uma clareira no meio de uma densa floresta interior repleta de pigmeus. Estes serezinhos espionam descaradamente a nossa mente confusa e saem contando a todo mundo quem na realidade somos. Na verdade eles não falam - são mudos - mas dirigem holofotes reveladores sobre os nossos pontos mais sombrios. Tá certo que ninguém fala dessas coisas, fingindo que não existem dores escondidas e que homem que é homem não chora... As vezes são necessários muitos anos pra que a coragem nos ajude a retomar certos eventos e só então encará-los de frente. Aí, como se diz, as águas já rolaram e não há muito por fazer a não ser rir de tudo aquilo que, quando aconteceu, tantos males nos causou. O riso é de fato um grande remédio. Uma de suas qualidades é que nos ensina a não levar tudo tão a sério na vida. Claro que não são lições muito fáceis no momento mesmo em que nos estão sendo ministradas - no meio de lágrimas e ranger de dentes. Mas a gente cresce - não necessariamente amadurece, - e inevitavelmente ficamos mais velhos. Aí você se olha no espelho e não consegue acreditar que aquele cara ali na sua frente já passou dos cinquenta. Parece que foi ontem que tudo começou mas, na melhor das hipóteses, mais da metade já ficou para trás. O que me parece estranho é que mesmo depois dos inúmeros pequenos tremores ou dos raros grandes tsunamis da vida - ainda me sinto aquele mesmo rapazinho que já não aparece mais na minha frente quando o procuro no espelho...

Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2008

culpa

A culpa é sorrateira. Estamos no mesmo ringue há cinquenta anos e, embora nunca tenha me levado a nocaute, também nunca me dá tréguas. Às vezes tenho motivos para defrontar-me com ela e outras vezes dá o maior trabalho tentar advinhar o porquê da nossa rinha. Nem sempre há um. Já fiz terapia, fui no centro espírita, consultei o seu vigário... nada! Quando tudo está perfeito, mesmo assim me assedia com seu riso cínico, como a dizer - "pensa que vai ficar assim é?!"... Quando piso na bola de verdade, então, ah como a dita me espezinha! Pensei que na maturidade eu a venceria, mas parece que ela se tornou mais maliciosa e arrogante - ainda mais sutil e poderosa, ao ponto de eu não conseguir derrubá-la como sempre pretendia. Tenho que admitir - é uma companheira de longa data e vai ser parceira de aturar por toda a vida...

Domingo, 10 de Fevereiro de 2008

caçada literária

Veio embarcado em moderno submarino mas não chegou molhado. É um elegante volume de capa alaranjada e o dorso em tons pastéis. Senti o aroma das suas páginas que são tantas quanto a soma dos dias do ano - ao menos na versão publicada pela Editora Nova Fonteira, traduzida por Maria Helena Rouanet. Gosto deste cheiro de livro novo. Apreciei demoradamente o aspecto exterior com suas cores e formato e em seguida sentei-me no sofá da sala, li como sempre faço as duas orelhas e em seguida mergulhei ludicamente naquele soberbo enredo. Li desabalado sem conseguir parar, sorvendo aquele conteúdo denso, triste, alegre, magnânimo - tudo junto - em apenas dois ou tres longos goles. Ao terminar - ainda refém das múltiplas sensações provocadas pela leitura - me deu vontade beijar com reverência aquele objeto precioso. Meu coração poeta ainda bate descompassado. Bendito Khaled Hosseini com este seu maravilhoso O Caçador de Pipas...

Sábado, 9 de Fevereiro de 2008

conto da esquina

Quando virei aquela esquina no caminho de todo dia jamais podia imaginar quem viria em sentido contrário. Fui pego de supresa e fiquei absolutamente sem reação. Mais de sete anos sem notícias e embora seu semblante permanecesse nítido em minha mente, já não era uma lembrança assim tão frequente e eu até pensava que não exercia mais sobre mim seu antigo fascínio. Ledo engano pois ao vê-la minhas pernas bambearam, a voz sumiu na garganta e o chão pareceu faltar-me sob os pés. Ela nem pareceu notar-me apesar de em nenhum instante desviar de mim o seu olhar ou me evitar. Nos cruzamos sem palavras e cada um continuou o seu caminho. Não me pareceu nenhum pouco perturbada e arrastando aquele garotinho de cabelos encaracolados seguiu sem me dirigir palavra. Quanto a mim, emudecido de espanto e incapaz de articular qualquer grunhido, afundei numa sombria noite de lembranças e agora, quando me supunha inteiramente livre daquela obsessão, vi subitamente me envolverem de novo aquelas teias do passado. Feito um robô meus passos me levavam sem destino. Haverá um novo encontro? De quem seria o menino? Seus vivazes olhos infantis amendoados tinham algo dos meus. Meu Deus, seria possível?! Teria sido este o motivo do súbido desaparecimento e da sonegação sistemática de explicações e notícias? Ela sabia que eu não queria ter filhos tão cedo, mas... Virei o pescoço cento e oitenta graus propenso a correr e persegui-la, mas ela já desaparecera mergulhando novamente no nada de onde surgira, depois de seus passos decididos a terem feito dobrar a nossa esquina...

Segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2008

um fado em lembranças

Ao espelho embaçado minha imagem alterada não é verdadeira. Mas eu me conheço e com fantasia elimino as deformidades e o efeito dos anos acumulados. Sobrepõe-se nova imagem recuperada na lembrança residual das décadas passadas. Um jovem se apresenta com olhos vivazes e sonhos de futuro. Me remexo inquieto e volto ao aqui e agora em que o futuro já chegou. Percebo que foram feitos muitos ajustes na longa travessia. O ponto alcançado não é aquele sonhado mas também não é tão frustrante assim pois o caminho sinuoso foi bom e permitiu - ao lado de inúmeros percalços - algumas nuances de aventura. Venturas e sabores neste universo múltipo que carrego nas minhas mais profundas instâncias e reminiscências. Palavras fazem parte da bagagem e foram entalhadas com cuidado no decorrer da jornada contínua que ainda me permite sonhar... Aonde está o porto, pra onde me leva este mar?! É preciso ir além, é preciso navegar!

Sábado, 2 de Fevereiro de 2008

frutos maduros



sorvo um trago gelado
e abraço a imensidão infinita
ao meu redor crianças em burburinho
não me incomoda o alarido
aprecio a bruma e a vastidão do mar
descalço mergulho os pés na areia
um torpor me invade a alma
descanso absorto e calmo
tuas mãos desalinham meus cabelos
não peço quase nada
me bastam tais momentos
e a certeza do teu amor maduro
se estás ao meu lado
nestas tardes quentes
assim indolente
é tudo o que preciso
para viver feliz...